Comissão de Proteção à Criança e ao Adolescente demonstrou preocupação com afastamento da família na formação educacional dos filhos.
A preocupação com a má influência das redes sociais e jogos on-line na educação de jovens pautou a reunião da Comissão de Proteção à Criança e ao Adolescente realizada nesta terça-feira (2). Para debater o tema, o colegiado presidido pelo deputado Alcântaro Filho (Republicanos) recebeu convidadas com atuação em áreas que fazem interface com o assunto.
Proponente e participantes apontaram que mesmo sem saber, muitas vezes, pais acabam entregando o celular para as crianças sem estarem cientes dos riscos que esse recurso pode apresentar na formação delas. São perigos a longo prazo, como impactos negativos na construção cognitiva, ou também como exposição a situações de cyberbullying e crimes de exploração sexual.
Na avaliação do parlamentar, o tema é negligenciado pelo poder público e pelas famílias, cada vez mais envolvidas com compromissos relacionados ao trabalho e, portanto, com menos tempo dedicado aos filhos. Segundo ele, no Brasil a situação ganha proporções maiores porque 90% dos jovens gastam, em média, de 4 horas a 6 horas nas redes sociais diariamente. “As crianças estão sendo muitas vezes educadas pela internet, não pelas suas famílias”, pontuou.
Monitoramento
Em um mundo em constante evolução tecnológica, a psicóloga Julienne Cândida de Melo defendeu que a criança e o adolescente precisam estar em constante monitoramento – o que não pode ser confundido com controle. “É muito mais fácil eu silenciar essa criança dando uma tecnologia para ela”, avaliou. “Mas quem vai estar com essa criança, tomando conta dela?”, questionou.

De acordo com a convidada, o cenário de ausência dos pais na formação pode gerar barreiras futuras a serem enfrentadas por uma pessoa que, embora pareça, ainda não está adulta. Isso inclui problemas que envolvem a autoimagem, a aceitação, a validação. Para ela, há ainda uma suscetibilidade maior para que esse sujeito sofra com dependência emocional.
Impactos no desenvolvimento
A assistente social Ketheli Monick relatou que o uso prolongado de telas também pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo e social de crianças e adolescentes, com reflexos na redução da capacidade de concentração, perda de interesse por atividades fora do ambiente virtual, além de dificuldades de relacionamentos sociais, bem como sintomas de ansiedade e depressão.
Os efeitos desse cenário na segurança pública foram apresentados pela oficial investigadora da Polícia Civil Arcangela Pivetta dos Santos. “As telas hoje estão muito nocivas”, destacou. “Hoje nós temos por trás das telas, isso é noticiado, pessoas que se passam (…) por outra criança, mas é um possível pedófilo”, completou. A convidada defendeu o uso de tecnologia, como aplicativos, para regrar o uso da internet nesses casos.

Soluções
Ao comparar os efeitos nocivos da utilização indiscriminada da internet ao uso de drogas, Alcântaro cobrou a elaboração de políticas públicas para levar conhecimento sobre o assunto. Ele adiantou que elaborará um projeto de lei criando um programa para a educação digital, que também terá como objetivo alertar esse público-alvo sobre riscos associados ao ambiente virtual, como sexualização precoce, pedofilia e cyberbulling.
A assistente social Kétherine de Nardi Silva apontou o diálogo entre pais, filhos e educadores nas escolas como saída. “Existem certos assuntos, que eles até consideram como tabus (…) mas que as crianças e os adolescentes têm que se sentir à vontade de trazer o diálogo e conversar. Isso tem que ser incentivado”, observou. A convidada também falou que a prática esportiva pode contribuir.
“A gente não educa nossos filhos sozinhos”, alertou a psicóloga Julienne. “Se eu não dou abertura para que meu filho, minha filha, meu adolescente confie em mim para tratar suas questões, principalmente relacionadas à sexualidade, eu vou ter uma outra pessoa que vai estar fazendo isso lá fora”, ponderou. Ela reafirmou a necessidade de políticas de conscientização sobre os valores familiares, de acolhimento e informação na formação das crianças.