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Foto: UFRGS

Pesquisa sugere nova estratégia para desacelerar a progressão da Doença de Alzheimer

Estudo da Faculdade de Medicina aponta que a comunicação entre dois tipos celulares (os astrócitos e a micróglia) no cérebro é determinante para o desenvolvimento dessa enfermidade

Dados da Alzheimer’s Disease International (ADI) apontam que a cada 3 segundos surgem novos casos de demência no mundo. Atualmente, mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, sendo o Alzheimer responsável por cerca de 70% dos casos dessa condição. No Brasil, a doença de Alzheimer (DA) e outras demências poderão afetar 6,7 milhões de pessoas até 2050.

A demência é, em geral, uma condição clínica progressiva que compromete um ou mais domínios cognitivos, resultando no declínio funcional do indivíduo. A principal causa de demência é a doença de Alzheimer (DA), que culmina na degeneração e na morte neural. Com foco nas investigações sobre essa doença, o estudante de Medicina e doutorando no Departamento de Bioquímica da UFRGS, João Pedro Ferrari-Souza publicou recentemente um estudo na conceituada revista Nature Neuroscience sobre uma descoberta inovadora para o tratamento de Alzheimer. 

A pesquisa examina o papel da inflamação neural na progressão da DA a partir da interação entre micróglia e astrócitos, tipos de células que desempenham um papel fundamental na neuroinflamação e coordenam o repertório de respostas imunes no cérebro. Assim, os pesquisadores sugerem que a neuroinflamação, envolvendo a comunicação entre micróglia e astrócitos, é um mecanismo patológico chave na DA, oferecendo novos alvos terapêuticos. “Observamos que o acúmulo da proteína beta-amiloide desencadeia alterações no cérebro que favorecem a progressão da doença apenas na presença da micróglia ativada”, explica João.

Com esse achado, os pesquisadores apresentaram a primeira evidência clínica de que, além do acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau, uma interação disfuncional entre micróglia e astrócitos desempenha um papel decisivo no desenvolvimento da doença de Alzheimer. Esse fator sugere que futuras terapias devem ir além da simples remoção da proteína beta-amiloide, buscando também regular a comunicação entre micróglia e astrócitos como estratégia para desacelerar, ou até impedir, a progressão do Alzheimer.

Para chegar a esse resultado, os cientistas utilizaram uma combinação das metodologias avançadas (biomarcadores ultrassensíveis de sangue e líquor, exames de neuroimagem e avaliações clínicas detalhadas) para examinar a relação entre a patologia de amiloide-beta (Aβ) e a reatividade astrocitária (medida pelo GFAP plasmático). Historicamente, essas células (micróglia e astrócitos) só podiam ser estudadas em animais ou no cérebro após a morte, mas através de biomarcadores é possível investigar alterações dessas células no cérebro humano em vida. 

“Esse contexto forneceu a incrível oportunidade de aprofundar o entendimento do papel da inflamação cerebral no desenvolvimento da doença de Alzheimer e por que a doença evolui de maneira tão diferente entre as pessoas”João Pedro Ferrari-Souza

Ao integrar as diferentes modalidades de investigação, os pesquisadores conseguiram mapear a resposta microglial e astrocitária no cérebro de mais de 300 indivíduos, envolvendo pessoas saudáveis e pessoas em diferentes estágios da DA. Foi possível verificar que algumas delas tinham um acúmulo da proteína beta-amiloide no cérebro, mas não desenvolveram demência, ao passo que outras evoluíram rapidamente. “Isso revela que essa proteína não é capaz de explicar totalmente o desenvolvimento do Alzheimer. Por isso, a neuroinflamação vem ganhando crescente destaque”, diz João.

À esquerda (mapa 3D do cérebro de indivíduos cognitivamente saudáveis), ao centro (mapa 3D do cérebro de indivíduos com doença de Alzheimer), à direita (mapa 3D cerebral de indivíduos cognitivamente saudáveis e pacientes acometidos pela doença de Alzheimer). Crédito: Dados da pesquisa.
Passos para o futuro

Desenvolvida com parceria internacional, a pesquisa liderada por João contou com a participação de pessoas do Canadá e dos Estados Unidos, além de parcerias nacionais com outras instituições de saúde. A publicação desse artigo avança com respostas ao entendimento sobre a doença de Alzheimer, abrindo oportunidades para novas formas de tratamento. 

“Nossos achados indicam que intervenções voltadas à modulação da neuroinflamação (especificamente a comunicação entre os astrócitos e a micróglia) podem potencializar os benefícios de terapias que já estão em uso”João Pedro Ferrari-Souza

Mesmo com os avanços desta pesquisa, é evidente que a eficácia dos tratamentos precisa ser aprimorada, em especial sobre o entendimento mais profundo dos fatores biológicos que impulsionam a progressão da doença. A partir de agora, os pesquisadores pretendem desenvolver um estudo similar para compreender se o mesmo fenômeno acontece no cérebro da população brasileira. 

“Hoje sabemos que o acúmulo das proteínas beta-amiloide e tau, embora central, não explica totalmente a progressão da DA, uma vez que múltiplos fatores estão envolvidos. Diante dessa natureza multifacetada, é plausível supor que estratégias terapêuticas combinadas, direcionadas a múltiplas vias patológicas, possam potencializar os benefícios clínicos das terapias já existentes”, finaliza João. 

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